Vivemos um tempo paradoxal: nunca foi tão fácil atravessar fronteiras físicas e nunca foi tão difícil ultrapassar fronteiras mentais. A Europa construiu, nas últimas décadas, um dos mais ambiciosos projetos de abertura do mundo contemporâneo. O Espaço Schengen, criado em 1985, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, simbolizaram a promessa de um continente mais livre, mais unido e mais humano. No entanto, essa promessa encontra, hoje, um ponto de inflexão. Os muros não desapareceram — transformaram-se. Persistem nos discursos, nas políticas e, sobretudo, nas perceções coletivas. O conceito alemão “Mauer im Kopf” continua atual: há uma fronteira invisível que separa “nós” de “eles”, frequentemente alimentada pelo medo e pela instrumentalização política da diferença. A Europa enfrenta hoje uma escolha estrutural: aprofundar o seu modelo de abertura ou ceder à lógica de fortaleza. Em vários contextos, assistimos a um endurecimento das políticas migratórias, à normalização de discursos de exclusão e à crescente legitimação de narrativas populistas. Importa clarificar: não estamos apenas perante rejeição do “outro”.
Estamos perante algo mais profundo, uma seleção implícita sobre quem é digno de entrar. Mais do que xenofobia, é a aporofobia que se afirma: a rejeição dos pobres, dos vulneráveis, dos que não correspondem a uma lógica de utilidade económica. Portugal, historicamente marcado pela emigração, não está imune. Começam a emergir sinais preocupantes de normalização de discursos anti-imigração, muitas vezes assentes na simplificação, no medo e na construção de narrativas polarizadoras. O risco não está apenas no discurso, está na sua banalização.
E é precisamente aqui que a política deve assumir o seu papel: não o de amplificar medos, mas o de construir pontes. Não o de explorar divisões, mas o de criar condições para o encontro. Mais do que falar sobre imigração, é urgente falar com quem migra. Escutar, compreender e integrar não são apenas imperativos éticos — são condições para a coesão social e para a sustentabilidade democrática. É neste contexto que surge a Bienal “What’s Beyond That Border?”, que terá lugar em Viseu entre 21 e 31 de maio. Com direção artística de Romulus Neagu, e desenvolvida no âmbito do CLDS 5G Viseu Plural — promovido pelas Obras Sociais de Viseu — esta iniciativa afirma-se como um espaço de encontro entre culturas e experiências. Um evento cultural que convida à construção de uma comunidade mais consciente, mais inclusiva e mais capaz de lidar com a complexidade do nosso tempo. A questão não é apenas o que está para além da fronteira. A questão central é outra: que tipo de sociedade queremos construir deste lado da fronteira? As fronteiras mais decisivas não são geográficas, são políticas, são morais. “Kein Mensch ist illegal” — nenhuma pessoa é ilegal.

José Carreira – Presidente das Obras Sociais Viseu


